Marcelo Damato - 09/09/2012 - 12:50 São Paulo (SP)
Aristeu assume a Conaf com o objetivo de melhorar a tão criticada arbitragem brasileira (Foto: Mowa Press)
O novo chefe da arbitragem brasileira, o ex-assistente Aristeu Tavares, é mais um a tentar onde seus antecessores falharam. Cabe a ele fazer com que a arbitragem brasileira não seja o foco de tantas reclamações, a ponto de que os programas esportivos às vezes falam mais dos homens com apito do que daqueles que chutam a bola.
Para alcançar seu objetivo, Tavares tem o perfil e tentará a mesma estratégia da maioria de seus antecessores. Em primeiro lugar, foi árbitro de destaque, chegando a trabalhar em Copa. Em segundo, fez carreira militar, na PM do Rio. Por fim, é respeitado e bem relacionado dentro da arbitragem.
Nas ideias e estratégias também não se diferencia muito daqueles que o precederam: limita a transparência dos seus atos, busca uma renovação nos quadros de arbitragem, não vai levar em consideração o que seus predecessores fizeram e, principalmente, é contra o sorteio de arbitragens. Mas Tavares tem uma história de sucesso profissional bem maior do que os que vieram antes e trouxe da PM uma fama de exigente e realizador.
Aos torcedores resta fazer o que sabem: torcer, torcer para que consiga dar um jeito na arbitragem e que não perca o cargo por causa de uma trapalhada de um assistente.
Vi uma entrevista sua criticando o sorteio de arbitragem. Por quê?
Quando você precisa se submeter a uma cirurgia, você aceitaria um médico escolhido por sorteio? Não, escolheria o melhor para você.
Mas ao longo do tempo, os sorteios envolvem cada vez menos árbitros. No seu primeiro sorteio, pôs 13 árbitros para dez partidas da Série A. Ou seja, sete árbitros já estavam escalados porque apareciam nas duas colunas. Como isso pode ser tão pior que a escala?
O sorteio não envolve só isso. Muitas vezes, os melhores árbitros não podem atuar, porque estão apitando Libertadores, Eliminatórias, ou estão machucados. No fim de semana deste feriado, a Conmebol requisitou quatro árbitros Fifa e quatro assistentes. E o Evandro Roman está afastado por cauda do teste físico. Assim, a metade dos melhores está fora.
Como pretende administrar o quadro?
É preciso fazer uma renovação. Hoje temos árbitros experientes, com dificuldade de manter a forma física. E árbitros com muito vigor e pouca experiência. Vamos apostar em jovens árbitros promissores, para que daqui a alguns anos já tenham experiência e ainda tenham bastante vigor.
O quadro será remoçado?
Isso já está sendo feito. Em 2007, havia 18% de árbitros no quadro da CBF com menos de 30 anos. Hoje já quase 50% abaixo desse limite.
Como isso será feito?
O quadro atual tem 415 árbitros e assistentes. Vou criar um subgrupo de 45, que serão os que apitarão a Série A e alguns jogos da B. Mais tarde farei mais dois subgrupos, um para a Série B e um pouco da C e o último para a Séries C e D.
E as categorias atuais, Fifa, aspirante, especial, CBF1 e CBF2?
Elas são categorias formais. Os subgrupo os têm um caráter diferente, mais flexível.
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A comissão antiga já estava fazendo um processo de renovação. O quanto desse trabalho será aproveitado?
Basicamente, nada. Vamos fazer de acordo com nossa observação. Você deve se lembrar que toda a nova comissão é formada de instrutores. (Nota da Redação: Neste ponto, Dionísio Roberto Domingos, membro da comissão, que assistia à entrevista, disse: "Nós conhecemos um por de todos os árbitros do Brasil em situação de treinamento")
Você pretende anunciar para o público quais árbitros estarão em cada subgrupo?
Não vejo nenhuma necessidade de fazer isso.
Você pretende anunciar isso pelo menos aos árbitros?
Também não. Cada árbitro saberá em que subgrupo estará, receberá todo o retorno sobre os pontos a se desenvolver e terá a certeza de que se ele fizer por onde irá progredir na carreira.
Uma das questões mais polêmicas é a transparência para o público. Pretende mostrar aos torcedores quais lances os árbitros acertou e quais não?
O regulamento prevê que em casos excepcionais o chefe da comissão pode se manifestar publicamente. Fora disso, dependo da autorização da área de comunicação da CBF. Eu não me nego a falar, mas quero deixar claro que não procurarei a mídia para dar a posição.
Mas como se saberá posição da comissão?
Pela escala é possível ver quem ia sempre para sorteio e ficou duas, três semanas fora do sorteio.
Mas, por causa das ausências por lesão e jogos internacionais, é impossível saber olhando só as escalas, mesmo para os poucos com paciência de tabular os dados.
Quem conhece arbitragem vai ser capaz de entender.
Qual é o nível da arbitragem brasileira para você?
Não só o Brasil, como toda a América do Sul, vive um período de entressafra. Em poucos anos três grandes árbitros, Carlos Eugênio Simon, Salvio Spínola e Leonardo Gaciba, se aposentaram. Apesar disso, acho que não estamos muito mal. Basta ver que num levantamento de 770 partidas, o número de reclamações enviadas à ouvidoria não chega nem a 5%.
É justa a crítica de que antigamente a arbitragem era melhor?
Não vejo assim. Agora há muito mais câmeras olhando os lances. Assim, aparecem mais erros. E os lances são muito mais rápidos. Os árbitros têm que estar mais bem preparados. E estão. O programa de instrutores, do qual nós três fazemos parte, dá treinamento e capacitação em todo o Brasil.
Entre a violência, a simulação e a indisciplina, qual ponto você pretende priorizar na orientação aos árbitros?
Os três são prioridade. Não vejo um acima dos dos outros. Vamos fazer um trabalho equilibrado.
Por que os árbitros brasileiros parecem tão mais gordos do que os de fora do país?
(NR: Resposta dada por Dionísio Roberto Domingos, a pedido de Tavares) Nos últimos anos, a Fifa passou a controlar o índice corporal dos árbitros. Há três anos a taxa de gordura estava em 23% no quadro nacional, um número muito alto. Os testes deste ano indicam que o índice caiu para 16%. Estimamos que daqui a três anos, os valores estejam dentro da expectativa da Fifa.
Árbitros com alta taxa de gordura podem ser rebaixados dentro do quadro?
(NR: Domingos continua) O índice não reprova, o que reprova é o teste físico e o teórica. Mas árbitros com índice corporal maior têm mais dificuldade de fazer o teste. Além disso, o índice é um dos componentes que levam ao ranking.
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Tavares foi coronel da PM e foi à Copa-2006
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| Aristeu é cumprimentado por José Maria Marin, presidente da CBF (FOTO: Rafael Ribeiro/CBF) |
O coronel Aristeu Leonardo Tavares foi um dos nomes mais respeitados da arbitragem brasileira enquanto atuou como árbitro assistente. Chegou ao máximo da carreira, atuando na Copa do Mundo de 2006.
Vários antigos colegas da Ferj o definem como uma pessoa correta e discretamente desafeto do diretor de árbitros da entidade, Jorge Rabello. Preveem que a renovação do quadro carioca da CBF deve ser maior que a média.
Na PM do Rio, foi tenente-coronel até julho, quando se aposentou e virou coronel. Seu perfil era considerado como um misto de ação – seu batalhão participou da ocupação de favelas para instalar UPPs – e político – tendo muitas relações dentro e fora da corporação. Por todos os motivos, ocupou cargos muito importantes, como
relações-públicas da corporação, um cargo que dá muita visibilidade e muitas vezes é uma ponte para o posto de comandante-geral. Já foi considerado para o posto,
mas sua vez nunca chegou.
Segundo um alto oficial da PM, o coronel Leonardo, como era conhecido lá, foi um dos líderes de um grupo de oficiais que é rival daquele que ocupa o topo do comando atualmente. Por isso, ficou sem espaço para crescer e esse teria sido um dos motivos de sua aposentadoria precoce.
Na CBF, o salário de Tavares é de pelo menos R$ 35 mil, mas pode ser de o dobro disso, o que seria mais de o triplo do que recebia na PM, incluindo gratificações.
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ALTOS E BAIXOS DA ARBITRAGEM DO BRASIL
1962 - O bandeirinha uruguaio Esteban Marino deixa o Chile às pressas e sua ausência impede que Garrincha, expulso na semifinal, seja suspenso na final da Copa. Com Garrincha, o Brasil é bicampeão.
1973 - Armando Marques erra na contagem de pênaltis e proclama o Santos campeão quando a Portuguesa ainda podia empatar. A FPF proclama ambos os times campeões.
1981 - José Roberto Wright apita partida entre Flamengo e Atlético-MG pela Copa Libertadores. Wright expulsa cinco jogadores do Atlético-MG no primeiro tempo, encerrando o jogo.
1982 - Sem avisar à comissão de arbitragem nem aos jogadores, José Roberto Wright apita um Flamengo x Vasco com um gravador no bolso, a pedido da TV Globo. A emissora mostra os jogadores falando palavrões. Wright recebe punição leve.
1982 - O carioca Arnaldo Cesar Coelho torna-se o primeiro brasileiro a apitar uma final de Copa do Mundo, na vitória da Itália sobre a Alemanha.
1986 - O paulista Romualdo Arppi Filho torna-se o segundo e último brasileiro a apitar uma final de Copa do Mundo, na vitória da Argentina sobre a Alemanha por 3 a 2.
1997 - O então chefe da arbitragem da CBF Ivens Mendes é grampeado pedindo a clubes dinheiro para sua campanha a deputado por Minas em troca de favores da arbitragem.
2000 - O árbitro Jorge Rabello é cortado da lista para o quadro da Fifa quando se descobre que a Ferj registrava uma idade menor do que a real. Rabello é absolvido da suspeita de fraude.
2005 - O Ministério Público descobre que o árbitro Edílson Pereira de Carvalho aceitava dinheiro de apostadores em troca de favores de arbitragem. Por isso, as partidas que dirigiu no Brasileiro foram realizadas de novo.
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Chefe da Conaf caiu por falta de apoio
Se a nomeação de Aristeu Tavares para presidir a comissão de arbitragem não suscitou controvérsia entre os árbitros, o mesmo não se pode dizer da saída do antecessor, Sérgio Correa.
Essa foi a primeira vez que um chefe da arbitragem caiu por um erro técnico, nos últimos 20 anos.
Corrêa era chefe da arbitragem paulista quando em 2005 foi convidado por Edson Resende a integrar a comissão nacional. Quando este pediu para deixar o cargo - alegando nebulosas razões de saúde nunca explicadas - Correa assumiu, mas em quatro anos jamais foi efetivado no cargo. Por sua forte atuação sindical, Correa sempre foi visto com alguma desconfiança pelos cartolas.
Sua cabeça foi oferecida pelo então vice-presidente da CBF José Maria Marin para acalmar as federações rebeldes que o boicotavam alegando que haveria uma "paulistização" da CBF.
Para pacificar a entidade, Marin prometeu pôr um diretor de árbitros de outro estado quando surgisse uma chance. Os problemas de saúde de Correa já eram uma boa razão, mas Marin precisava de um momento político oportuno. E ele ocorreu com a polêmica do gol do Santos contra o Corinthians.
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